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Chef enaltece as qualidades da dieta vegetariana e defende os que optam por esse estilo de vida

Por Rosa Fonseca



Foto: Getty Images

Uma moça justificava à plateia estarrecida por que decidira assumir os cabelos brancos. Soava despojada, livre. Ficou lá horas, pressionada em rede nacional a pintar as madeixas.

Todos os dias, o discurso da valorização da diversidade aparece em debates politicamente corretos. Porém, nas coisas prosaicas, continuamos avessos à diferença.

Quem nunca viu um tabagista ser constrangido? Por uma convenção social, o cigarro, antes super cool, está na sarjeta. Em seu lugar, cervejas cintilam em propagandas em que todo mundo é feliz, magro, popular e não fica bêbado nem chato. Um dia o chope cai de moda e quem gostar vai ter que se explicar para a Santa Inquisição.

Vi gente sendo bombardeada por ser vegetariana. Numa feijoada, perguntei a uma pessoa que não se serviu de carne se era vegetariana. "Não, imagine, só não como carne...", respondeu evasiva. Fiquei na dúvida se seria uma judia evitando a carne de porco ou uma vegetariana evitando a perseguição. Reclamamos de xiitas que pentelham carnívoros em pleno churrasco e não percebemos que o contrário também ocorre.

Não sou vegetariana, caso o leitor a essa altura esteja achando que contarei histórias grotescas sobre o abate de bois. Venho de uma geração que acreditava ser imprescindível comer carne.

Felizmente, minha formação destruiu o equívoco. É, sim, 100% possível ser saudável sem ingerir carne. Ao contrário, os excessos protéicos, cada vez mais comuns, levam a desequilíbrios nutricionais. Segundo a nova pirâmide nutricional, baseada na dieta mediterrânea, o consumo de carne vermelha é desnecessário e recomenda-se o consumo de apenas uma porção de carne branca ao dia. Entenda por uma porção um filé do tamanho da palma da sua mão!

A alimentação urbana é composta basicamente de carboidratos simples, gorduras, muito laticínio, frango, carne bovina, sal, refrigerantes e álcool. Vão-se semanas sem uma fruta ou uma folha e achamo-nos no direito de proclamar a dieta vegetariana anormal.

Os motivos para aderir ao vegetarianismo podem ser mais práticos que ideológicos, como facilitar a digestão e diminuir o colesterol e as calorias. Porém, quase sempre esbarramos na filosofia da não-agressão. Ela afirma que para ser feliz, o ser humano deve evitar qualquer tipo de agressão contra o outro e contra si. É uma ideia linda e lógica que, se incorporada, daria fim a todo tipo de auto-sabotagem, violência e guerras.

Exponenciando, chega-se à máxima de que não faz sentido comprometer vidas animais se podemos viver normalmente sem comê-los.

Alguns lembrarão que o ser humano é onívoro, posicionando a ingestão de carne como impulso primitivo sem dolo. Vale lembrar que nosso instinto é também poligâmico e nem por isso consideramos desculpa para o adultério. Crimes hediondos não são tolerados em nome do impulso animal de matar, copular ou usar de violência. A ideia é que o homem, sendo racional, transponha a animalidade em prol do seu desenvolvimento ético.

Nada adianta recusar um bife e explorar pessoas, chutar gatos, sustentar preconceitos e dirigir ofensivamente. Acredito que o compromisso com a não-agressão deva ser amplo e que o vegetariano que empregá-lo em vão logo será desacreditado.

Alguém dirá que os vegetais também são seres vivos e que para levar a não-agressão às vias de fato haverá fome. Assim, vale registrar que é tão fato que os vegetais, vírus, bactérias, fungos e algas são vivos, como que não são dotados de sentimentos - como concordam ciência e religião - de modo que não podemos causar-lhes sofrimento.

Pesquisando para essa coluna, descobri outra vantagem do vegetarianismo: a otimização da produção de alimentos. Isso porque cem hectares produzindo grãos alimentam milhares de pessoas, mas se a área for pasto, a carne produzida alimenta apenas dezenas de indivíduos. Ainda se racionalizaria tempo, água e energia, porque a produção de vegetais é mais rápida e econômica. O pensamento é fundamentado, mas entendo que há fome no mundo pela nossa limitação em dividir, não em produzir.

Por fim, há quem recuse carne por conta dos hormônios. Como os vegetais contêm agrotóxicos, seria imprescindível consumir apenas orgânicos, para não trocar seis por meia dúzia. Sou muito favorável a uma alimentação natural, mas os males dos hormônios e o tratamento dos animais criados para abate pendem facilmente a uma abordagem sensacionalista - discurso fundamentalmente agressivo, que aprendi a desprezar.

Penso que argumentos belos despertam mais atenção do que os frívolos e que ficamos apáticos às más notícias justamente porque se tornaram vulgares. Ao lado de vegetarianos e não-vegetarianos de todo planeta, vibro por uma alimentação e um mundo bons pra cachorro.


Quem é a colunista: Com formações em Publicidade e Gastronomia, Rosa Fonseca é chef de cozinha, professora e colunista.

O que faz: Trabalhou em restaurantes como o Félix Bistrot e o Beth Cozinha de Estar. Hoje, atua como personal chef.

Pecado gastronômico: Chocolate e queijo da serra.

Melhor lugar do Brasil: Minha casa.

Fale com ela: rf_contato@yahoo.com.br




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